dtm e fatores oclusais

Maloclusão causa DTM? O que a evidência mostra

Leonardo Machado

Hoje a evidência não sustenta a mordida como origem da DTM. Numa revisão de referência (List & Jensen, Cephalalgia 2017), as associações entre maloclusão e DTM são poucas e inconsistentes, o tratamento ortodôntico nem causa nem previne DTM, e o ajuste oclusal (desgaste seletivo) não se mostra mais eficaz do que o placebo — sendo desaconselhado por ser irreversível. A DTM é descrita como um quadro multifatorial e biopsicossocial: mecanismos periféricos contam sobretudo no início, enquanto fatores centrais — sensibilização do sistema nervoso — governam a persistência da dor. Na prática, vale mais ler a DTM de forma integrada (exame muscular, sono, humor, dor comórbida) do que procurar a explicação na oclusão. É associação, não causa; o diagnóstico e o tratamento são do médico dentista.

Avaliação integrada de DTM além da mordida — sono, humor e dor — em consultório dentário neutro
A maloclusão explica pouco da DTM: a dor organiza-se sobretudo fora da boca — sono, humor e dores associadas merecem entrar na avaliação inicial.

Porque é que a mordida deixou de explicar a DTM?

Durante grande parte do século XX, a disfunção temporomandibular (DTM) foi lida através de modelos de fator único: ora a articulação, ora o músculo, ora a oclusão dentária. A publicação influente de Costen, nos anos 1930, popularizou a ideia de que as maloclusões originavam dor à volta do ouvido e da articulação. Nas décadas seguintes, a investigação concentrou-se nestas explicações isoladas — mas, como resume a revisão de List & Jensen na Cephalalgia, "encontrou pouca evidência de suporte". O resultado foi uma mudança de paradigma: a DTM passou a ser entendida como um quadro multifatorial, melhor descrito por um modelo biopsicossocial. Não é uma avaria local da mordida, mas um problema em que fatores físicos, comportamentais e emocionais se sobrepõem e interagem. Esta viragem está inscrita nos próprios sistemas de diagnóstico contemporâneos: o RDC/TMD foi a primeira classificação a incorporar o modelo biopsicossocial, e a sua versão revista, o DC/TMD, organiza a avaliação em dois eixos — um físico (diagnóstico) e outro psicossocial — precisamente porque a dor orofacial raramente se explica num só plano.

O que dizem as revisões sobre maloclusão e DTM?

Quando se olha para a relação direta entre a forma da mordida e a DTM, o sinal é fraco. A revisão sintetiza revisões sistemáticas de estudos populacionais que encontraram associações "poucas e inconsistentes" entre maloclusões e sintomas de DTM. Mais revelador ainda é o que acontece quando se altera deliberadamente a oclusão: o tratamento ortodôntico, que modifica a forma como os dentes encaixam, "nem causa nem previne" DTM. Por outras palavras, mudar a mordida não move o risco de DTM em nenhuma direção de forma fiável. Isto não significa que a oclusão seja irrelevante para a função mastigatória — significa que a maloclusão, tal como é habitualmente medida (classes de Angle, contactos, interferências), não funciona como causa da dor. Para quem avalia, a consequência é prática: procurar a origem da DTM na geometria dos contactos é olhar para o sítio onde a evidência mostra menos sinal, e arriscar deixar passar os fatores que de facto acompanham a dor.

E ajustar a oclusão — trata a DTM?

Se a maloclusão não está na origem, seria de esperar que corrigir a oclusão tampouco resolvesse a dor — e é o que a evidência mostra. O ajuste oclusal, ou desgaste seletivo, não se revelou mais nem menos eficaz do que o placebo no tratamento da DTM, e os próprios autores o desaconselham, sobretudo por ser uma intervenção irreversível. O caso das goteiras oclusais é mais subtil e merece nuance. São dos tratamentos mais usados, são reversíveis e atraumáticas, e há evidência de eficácia modesta no alívio da dor; mas os seus mecanismos de ação, nas palavras da revisão, "não foram bem estudados", e o efeito de curto prazo é inconclusivo quando comparado com goteiras palatinas que não tocam na oclusão. Ou seja: quando a goteira ajuda, dificilmente é por corrigir a mordida — uma goteira não-oclusante tende a produzir resultado semelhante. A leitura honesta é que estes dispositivos modulam o sistema por vias que não são a configuração oclusal em si, e que o seu efeito não justifica intervenções irreversíveis sobre os dentes.

Então o que pesa de facto na DTM?

Se a mordida explica pouco, o que explica? A revisão aponta para um conjunto de fatores que se acumulam. A comorbilidade dolorosa é marcante: cerca de 83% das pessoas com dor-DTM relatam pelo menos uma outra condição dolorosa e 59% relatam duas ou mais. A associação à cefaleia é forte (até 8,8 vezes mais provável), e a dor cervical e lombar surge 2,6 a 5 vezes mais. O sono também conta — a perturbação do sono associa-se a mais atividade muscular e a dor facial matinal (presente em 71% dos doentes contra 13,6% dos controlos num dos estudos citados), e a má qualidade do sono prediz o aparecimento de DTM no grande estudo prospetivo OPPERA. No plano psicossocial, o stress percebido, os acontecimentos de vida stressantes e o afeto negativo destacam-se como preditores. A genética entra com efeitos pequenos (genes ligados ao processamento serotoninérgico e catecolaminérgico), e a hipótese hormonal do estrogénio tem suporte classificado como fraco. Nenhum destes fatores é, isoladamente, a causa; juntos, descrevem um sistema em que a dor se organiza muito para além da boca.

Qual o mecanismo: periferia ou centro?

A fisiopatologia ajuda a perceber porque é que corrigir a periferia raramente chega. A síntese dos autores é clara: os mecanismos periféricos têm papel sobretudo no início da DTM, enquanto os fatores centrais governam a sua persistência. A dor foi tradicionalmente atribuída a contração e isquemia dos músculos mastigatórios, mas os estudos de eletromiografia mostram atividade muscular normal ou apenas ligeiramente aumentada — o que enfraquece a explicação da simples hiperatividade. Em contrapartida, sabe-se que injetar soro fisiológico hipertónico no masséter de pessoas saudáveis evoca uma dor percebida como dor-DTM, o que situa o músculo como fonte aferente relevante. Com o tempo, instala-se sensibilização central: os neurónios de segunda ordem no núcleo trigeminal e os neurónios supraespinais tornam-se mais reativos, e a modulação descendente da dor fica comprometida. É também isto que explica a forte sobreposição entre DTM miofascial e cefaleia de tipo tensional — partilham áreas anatómicas e mecanismos, ao ponto de o exame clínico nem sempre as distinguir. A dor deixa de ser proporcional ao estímulo local e passa a refletir o estado do sistema que a processa.

O que significa para a leitura clínica (e quando encaminhar)?

Daqui não decorre que a oclusão não interesse à medicina dentária — decorre que ela não é o lugar onde a DTM se resolve. A leitura útil é integrada: avaliar a DTM com o exame muscular recomendado, mas perguntar com a mesma naturalidade pelo sono, pelo humor e pela presença de outras dores. Os instrumentos do DC/TMD (eixo físico e eixo psicossocial) existem precisamente para organizar esta leitura em dois planos. Em vez de intervir sobre a mordida por rotina, faz sentido rastrear as dimensões que a evidência mostra associadas à dor e articular a leitura com os profissionais certos: o médico dentista, a quem cabe o diagnóstico e o tratamento da DTM; e, quando os sinais o justificarem, a medicina do sono, a neurologia/cefaleias ou a saúde mental. Os próprios autores defendem uma abordagem multidisciplinar, juntando o especialista em dor orofacial e o neurologista, e tratamentos conservadores combinados — comportamentais, físicos, farmacológicos — adaptados a cada pessoa. É a lógica de ler a boca dentro do sistema, e não fora dele.

Que limites tem esta evidência?

Convém comunicar os limites com honestidade. Trata-se de uma revisão narrativa, não de uma meta-análise com protocolo sistemático, pelo que sintetiza uma base de evidência de qualidade desigual. Os próprios autores notam que muitos dos ensaios de tratamento têm baixa qualidade metodológica e seguimentos curtos, e que a etiologia da DTM "continua sem estar claramente compreendida". As relações descritas — entre DTM e sono, humor ou dor comórbida — são em larga medida associações, e associação não é causa: descrevem o que anda junto, não a ordem em que as coisas acontecem. Nada disto reabre a porta ao modelo oclusal; pelo contrário, é coerente com a conclusão central de que a DTM é multifatorial. O que estes limites obrigam é a prudência na leitura individual — a não transformar uma média de grupo numa certeza sobre uma pessoa concreta — e a manter o que a evidência hoje sustenta: a mordida explica pouco; o sistema explica muito.

Perguntas frequentes

A maloclusão causa DTM?

A evidência sintetizada por List & Jensen (2017) mostra associações poucas e inconsistentes entre maloclusão e DTM, e o tratamento ortodôntico nem causa nem previne DTM. A DTM é multifatorial; a mordida, isoladamente, não funciona como causa. É associação, não causa.

Vale a pena fazer ajuste oclusal para tratar a DTM?

Não como rotina. O ajuste oclusal (desgaste seletivo) não se mostrou mais eficaz do que o placebo e é desaconselhado por ser irreversível. As goteiras podem aliviar a dor de forma modesta, mas por mecanismos que não são a correção da mordida. O diagnóstico e o tratamento são do médico dentista.

Se não é a oclusão, o que rastrear num doente com DTM?

Sono, humor e dor comórbida (cefaleia, dor cervical e lombar), além do exame muscular previsto no DC/TMD. São as dimensões que a evidência associa à dor de DTM. Quando os sinais o justificarem, articular com medicina do sono, cefaleias ou saúde mental.

Referências

  1. List T, Jensen RH. Temporomandibular disorders: Old ideas and new concepts. Cephalalgia. 2017;37(7):692-704.
  2. Schiffman E, Ohrbach R, Truelove E, et al. Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD) for Clinical and Research Applications. J Oral Facial Pain Headache. 2014;28(1):6-27.
Próximo passo

Uma carta clínica por mês, para a sua prática.

Subscrever as Cartas INOS