A goteira resolve a dor de DTM e a enxaqueca?
Na maioria dos estudos, a goteira oclusal acompanha-se de algum alívio da dor associada à disfunção temporomandibular (DTM) — cerca de 60% relatam resultado positivo —, mas a evidência é de qualidade baixa a moderada e o tipo de goteira (estabilizadora ou de inibição trigeminal) não mostra superioridade clara. Na enxaqueca ou cefaleia comórbida com DTM, a goteira não se mostra superior ao tratamento habitual, e o mecanismo do alívio permanece por esclarecer. É associação, não garantia: a goteira é uma medida reversível que pode ajudar dentro de uma abordagem multidisciplinar, decidida com o médico dentista — não um tratamento isolado da DTM nem da enxaqueca.

A goteira faz a dor de DTM diminuir?
Na maioria dos estudos, sim — mas o sinal é mais modesto do que parece. A revisão de escopo de Almășan e colaboradores (2023) reuniu 15 estudos publicados entre 2007 e 2022; cerca de 60% relataram um resultado positivo da terapia com goteira na dor associada à disfunção temporomandibular (DTM), na dor miofascial e em cefaleias com características de DTM. É um padrão consistente e clinicamente útil: a goteira é reversível, não-invasiva e, na maior parte das séries, acompanha-se de alívio.
O problema está na qualidade da evidência que sustenta esse alívio. Dos 15 estudos, apenas dois foram classificados como de boa qualidade; oito ficaram em qualidade intermédia e cinco em qualidade baixa. Vários eram pequenos, sem grupo de controlo ou sem aleatorização. Por outras palavras: a direção do efeito é favorável, mas a confiança que se pode depositar em cada número é limitada. Ler "60% positivos" como "a goteira resolve a DTM" seria esticar o que a evidência mostra.
Que tipo de goteira é melhor — estabilizadora ou de inibição trigeminal?
É talvez a pergunta mais reveladora, e a resposta é contra-intuitiva. As duas goteiras mais estudadas são a estabilizadora, de cobertura total (a mais usada nos estudos), e a de inibição trigeminal nociceptiva, de cobertura anterior. Seria de esperar que uma fosse claramente superior. Não é o que os dados mostram.
Quando se comparam diretamente os tipos de goteira, a diferença esbate-se. Numa meta-análise dedicada à comorbilidade DTM-cefaleia (Manrriquez, 2021), a goteira estabilizadora reduziu a intensidade e a frequência da cefaleia quando havia efeito, mas não se encontrou diferença estatisticamente significativa na intensidade da dor entre os vários tipos de goteira — mole, de inibição anterior e de cobertura total —, e a qualidade da evidência foi classificada como baixa, com elevado risco de viés. A leitura honesta é que o benefício, quando existe, não parece depender muito do desenho específico do dispositivo. Isto desloca a atenção: do "aparelho certo" para aquilo que ele de facto faz no sistema.
E na enxaqueca: a goteira ajuda?
Aqui convém ainda mais prudência. Quando a DTM coexiste com enxaqueca ou cefaleia do tipo tensão, a goteira pode acompanhar alguma melhoria, mas não se mostra superior ao tratamento habitual. Num ensaio aleatorizado (Saha, 2019), a goteira oclusal usada de dia e de noite, somada ao cuidado habitual, não foi superior ao cuidado habitual isolado na redução da dor em doentes com cefaleia crónica e DTM comórbida; o número necessário para tratar foi de 3,8 e os próprios autores assinalaram a amostra pequena como limite.
A goteira não é, portanto, um tratamento da enxaqueca: é uma medida que, no contexto da DTM, pode contribuir para o conforto dentro de uma abordagem mais ampla. Vale a pena reter a nuance — comorbilidade não é causalidade, e cuidar da DTM não equivale a tratar a enxaqueca.
Porque é que a goteira ajuda — o que se sabe do mecanismo?
Pouco, e é importante dizê-lo. Os próprios autores da revisão reconhecem que o mecanismo pelo qual a goteira alivia a dor permanece desconhecido. Há hipóteses plausíveis: a goteira pode reduzir a atividade muscular noturna e o apertar dos dentes, modular a aferência do sistema trigeminal (a goteira de inibição trigeminal foi desenhada precisamente para isso) e alterar a forma como o sistema mastigatório se organiza sob carga.
Mas nenhuma destas vias está estabelecida como o motor do alívio, e o efeito não parece específico de uma configuração oclusal em particular. Esta incerteza não é um detalhe académico: muda a forma de comunicar com o doente. A goteira atua na periferia de um sistema, não sobre uma "causa" identificada — e o alívio que produz convive com fatores como o aconselhamento, a mudança de hábitos e a própria evolução do quadro ao longo do tempo.
Quando é que a goteira pode não chegar?
Quando o alívio não aparece, raramente é por "falha do dispositivo". Pode ser sinal de que o quadro tem componentes que a goteira não toca — sono, respiração, tónus muscular, fatores emocionais e a própria sensibilização central da dor crónica. Há ainda um ponto técnico a respeitar: as goteiras de cobertura parcial, como a de inibição anterior, podem associar-se a efeitos indesejados na oclusão se usadas sem acompanhamento.
Por isso a revisão insiste numa abordagem compreensiva e multidisciplinar — envolvendo o médico dentista e, quando indicado, o neurologista, o fisioterapeuta e outros — em vez de tratar a goteira como solução isolada. A decisão de usar, manter ou suspender uma goteira é clínica e cabe ao médico dentista; o contributo do fisioterapeuta é ler o comportamento do sistema que rodeia a articulação.
Que limites tem esta evidência?
Três limites estruturais merecem destaque. Primeiro, a heterogeneidade: os estudos definiram e mediram a dor de formas muito diferentes — de escalas visuais a questionários de cefaleia —, o que impede uma síntese quantitativa robusta. Segundo, a qualidade: predominam estudos pequenos, transversais ou sem cegamento, e até as revisões dedicadas classificam a evidência como de baixa qualidade. Terceiro, a confusão com co-intervenções: como a goteira surge quase sempre acompanhada de aconselhamento e de cuidado habitual, é difícil isolar o que se deve ao dispositivo.
Em conjunto, estes limites recomendam uma linguagem de associação e de probabilidade — a goteira pode ajudar — e não de garantia. É também por isto que a revisão termina a pedir mais ensaios aleatorizados com metodologia adequada.
Como integrar a goteira numa leitura do sistema?
A leitura mais útil não opõe "usar" a "não usar" a goteira: situa-a. A goteira é uma ferramenta reversível e de baixo risco que, no contexto certo, pode aliviar; mas o seu efeito não depende de uma configuração mágica nem substitui a compreensão do que mantém o quadro. Antes de assumir que a goteira resolve — ou que falhou —, vale a pena ler o sistema à volta da articulação: a estabilidade do fecho, o tónus dos músculos mastigatórios, os sinais de sono e respiração, e o estado emocional.
É exatamente esta a lógica do trabalho do INOS junto das clínicas: somar à decisão dentária uma avaliação funcional do sistema, de par para par, para que a goteira entre como parte de um plano e não como aposta isolada. O diagnóstico e o plano são do médico dentista; a leitura funcional ajuda a decidir onde a goteira encaixa — e onde não chega.
Perguntas frequentes
A goteira trata a dor de DTM?
Pode acompanhar alívio na maioria dos estudos (cerca de 60% com resultado positivo), mas a evidência é de qualidade baixa a moderada. É uma medida reversível dentro de uma abordagem multidisciplinar, não um tratamento isolado.
Qual é a melhor goteira para a DTM?
As comparações diretas não mostram um tipo claramente superior: numa meta-análise, a diferença entre a goteira estabilizadora, a de inibição anterior e a mole não foi estatisticamente significativa na intensidade da dor.
A goteira trata a enxaqueca?
Não como tratamento da enxaqueca. Num ensaio aleatorizado, a goteira somada ao cuidado habitual não foi superior ao cuidado habitual isolado em cefaleia crónica com DTM comórbida (número necessário para tratar de 3,8).
Porque é que a goteira alivia a dor?
O mecanismo permanece desconhecido. O efeito não parece específico de uma configuração oclusal e convive com co-intervenções como o aconselhamento e o cuidado habitual.
Referências
- Almășan O, Hedeșiu M, Leucuța DC, Buduru S, Dinu C. Oral splints in the management of nociceptive pain and migraines: A scoping review. Exp Ther Med. 2023;25(1):28.
- Manrriquez SL, Robles K, Pareek K, Besharati A, Enciso R. Reduction of headache intensity and frequency with maxillary stabilization splint therapy in patients with temporomandibular disorders-headache comorbidity: a systematic review and meta-analysis. J Dent Anesth Pain Med. 2021;21(3):183-205.
- Saha FJ, Pulla A, Ostermann T, Miller T, Dobos G, Cramer H. Effects of occlusal splint therapy in patients with migraine or tension-type headache and comorbid temporomandibular disorder: A randomized controlled trial. Medicine (Baltimore). 2019;98(33):e16805.
