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Dor na ATM: que sinais preveem a dor

Leonardo Machado

Na disfunção dolorosa da ATM, os sinais que melhor distinguem quem tem dor não são os da forma oclusal, mas os da função: o deslocamento da mandíbula, o tónus aumentado dos músculos mastigatórios e um fecho que não assenta de forma estável. Num estudo de 150 doentes (2025) foram estes sinais dinâmicos — e não a classe de maloclusão nem os supracontactos — que se associaram à dor; e uma observação clássica de 1978, ao nível dos reflexos musculares, vai no mesmo sentido. É associação, não causa: orienta para onde dirigir a avaliação funcional, em colaboração com o médico dentista, e não constitui uma regra de tratamento.

Dor na ATM: que sinais preveem a dor

Que sinais se associam à dor da ATM?

No estudo de Proshchenko e colaboradores (2025), com 150 doentes (60 com dor, 90 sem dor), sete sinais associaram-se de forma estatisticamente significativa à disfunção dolorosa da ATM. Por ordem de força de associação (odds ratio, OR):

  • Deslocamento mandibular funcionalmente estável — OR 23,6 (IC 95% 10,3–58,9). De longe o mais forte; os autores associam-no ao estreitamento do espaço articular distal, visível em tomografia computorizada em projeção sagital.
  • Hipertonia e hipertrofia dos músculos mastigatórios — OR 6,1; presente em 81,7% do grupo com dor contra 42,2% do grupo sem dor.
  • Restaurações com morfologia oclusal mal reproduzida — OR 4,1 (95% vs. 82,2%).
  • Oclusão não-fixa — OR 3,8 (63,3% vs. 37,8%).
  • Amplitude de abertura bucal reduzida — OR 2,7 (48,3% vs. 25,6%).
  • Diminuição da altura interalveolar — OR 2,3 (21,7% vs. 10%).
  • Desgaste atricional avançado das superfícies oclusais — OR 2,0 (61,7% vs. 44,4%).

O padrão é coerente: o que se associa à dor são variáveis de posição, tónus, estabilidade e função — não de classe ou de morfologia estática.

Porque é que a classe de maloclusão não basta?

No mesmo estudo, um conjunto de variáveis que a intuição clínica costuma associar à dor não discriminou os grupos: o tipo de maloclusão (p = 0,168), os supracontactos (presentes em 100% do grupo com dor e em 94,4% do grupo sem dor; p = 0,987), os defeitos isolados da dentição (p = 0,945), as deformações dentofaciais (p = 0,385) e a parafunção relatada (p = 0,469). A idade e o tratamento ortodôntico prévio também não se associaram; o sexo feminino ficou apenas no limiar (p = 0,058).

Isto não significa que a oclusão seja irrelevante. Significa que a oclusão estática — a fotografia dos contactos e das classes — diz pouco sobre quem tem dor. O sinal está na oclusão lida como função, em movimento e sob carga. É uma distinção que muda o foco da avaliação: da forma para o comportamento do sistema.

O que significa "oclusão não-fixa"?

"Oclusão não-fixa" descreve um fecho sem uma posição de intercuspidação estável e reprodutível — a mandíbula não encontra um ponto de assentamento consistente. No estudo, esta instabilidade associou-se à dor (OR 3,8), em linha com os outros preditores dinâmicos: deslocamento, tónus e perda de altura tendem a co-variar no mesmo doente.

É também a variável que liga este estudo recente a uma tradição de observação muito anterior: a ideia de que o sistema mastigatório procura uma posição de fecho repetível, e que a perda dessa repetibilidade acompanha a disfunção, já estava descrita há décadas (ver a secção seguinte). Vale a pena reter que estas variáveis aparecem juntas. Como a análise foi univariada — testou cada fator isoladamente —, é provável que os valores individuais sobrestimem o efeito de cada um, porque partilham terreno clínico. Mais do que somar ORs, interessa ler o conjunto: posição instável, músculo em sobrecarga, fecho que não assenta.

Esta leitura já aparecia num estudo clássico?

Sim — e conhecer essa raiz ajuda a calibrar a confiança. Há quase meio século, McNamara (1978) avaliou 180 pessoas com e sem dor-disfunção mastigatória, centrando-se numa "posição oclusal mediana": a posição para a qual a mandíbula regressa quando se deixa fechar de forma automática a partir de uma abertura ampla. O que distinguia os doentes não era a classe da mordida — era a instabilidade dessa posição (um fecho que não se repetia de forma consistente), a incoordenação dos músculos elevadores e o prolongamento de reflexos musculares registados por eletromiografia. Quando os sintomas aliviavam, estes sinais tendiam a aproximar-se dos valores de quem não tinha dor.

A direção é exatamente a do estudo de 2025: o sinal informativo está na função — estabilidade do fecho e estado dos músculos —, não na fotografia estática dos contactos. Duas casuísticas separadas por décadas e por métodos diferentes (uma com odds ratios, outra com eletromiografia) apontam para o mesmo lugar. Convergência não é prova, mas é um bom indício de que se está a olhar para a variável certa: o comportamento dinâmico do sistema, não a sua morfologia.

Como observar a posição mandibular e o tónus?

Na avaliação funcional, três observações simples ajudam a situar o caso, sempre em colaboração com o médico dentista, a quem cabe o diagnóstico e o plano:

  • Posição e trajeto da mandíbula — observar desvios e deflexões na abertura e no fecho, e se há um assentamento reprodutível.
  • Tónus muscular — palpar masséter e temporal procurando hipertonia e hipertrofia, e contrastar lados. É o sinal que, nas duas casuísticas, mais de perto acompanha o quadro doloroso.
  • Amplitude de abertura — registar limitações, que no estudo de 2025 se associaram à dor.

Estes sinais não fecham um diagnóstico: orientam a atenção e ajudam a decidir quando faz sentido uma leitura funcional mais detalhada e o encaminhamento. O objetivo é descrever o comportamento do sistema, não prescrever uma intervenção.

Que limites tem esta evidência?

Quatro limites a respeitar, declarados pelos próprios autores ou visíveis no desenho:

  • Análise univariada (Proshchenko 2025) — cada fator foi testado sozinho, sem controlar a influência conjunta dos restantes. Os ORs individuais devem ler-se como sinais de direção, não como pesos definitivos.
  • Desenho transversal — a dor e os sinais foram observados ao mesmo tempo, pelo que não se estabelece a direção causal. A hipertonia muscular, por exemplo, tanto pode preceder a dor como ser sua consequência.
  • O estudo histórico é ainda mais frágil — McNamara (1978) não tinha grupo de controlo com tratamento simulado nem cegamento, e os reflexos que mediu são sensíveis à própria dor; por isso não permite separar "oclusão" de "dor" como origem das alterações. Serve como convergência de direção, não como prova de mecanismo.
  • Amostras de conveniência — em ambos os estudos, só doentes que procuraram cuidados dentários. Há ainda, no estudo de 2025, uma inconsistência interna no relato dos sons articulares (intervalo de confiança e valor-p divergentes), que aconselha prudência com esse sinal.

Em suma: associação, não causa. O valor desta evidência está em mostrar, em casuísticas dentárias e ao longo de décadas, que os sinais dinâmico-funcionais acompanham a dor melhor do que a morfologia estática.

Quando justifica leitura funcional e encaminhamento?

Quando o quadro reúne deslocamento mandibular, músculo em sobrecarga e fecho instável — sobretudo com abertura limitada —, faz sentido uma leitura funcional integrada e a articulação com o médico dentista, e com outras disciplinas quando indicado. Não para "corrigir a oclusão" de imediato, mas para descrever o comportamento do sistema antes de decisões irreversíveis.

É exatamente esta a lógica do trabalho do INOS junto das clínicas: somar à leitura dentária uma avaliação funcional do sistema, de par para par.

Perguntas frequentes

Que sinais se associam mais à dor da ATM?

Deslocamento mandibular, hipertonia e hipertrofia dos músculos mastigatórios e oclusão não-fixa — sinais dinâmico-funcionais, não a classe de maloclusão.

A maloclusão prevê a dor?

Neste estudo, o tipo de maloclusão, os supracontactos e os defeitos isolados da dentição não discriminaram os doentes com e sem dor.

Há evidência mais antiga que aponte no mesmo sentido?

Sim. Um estudo clássico de 1978 (McNamara) observou que a instabilidade da posição de fecho e o prolongamento dos reflexos musculares acompanhavam a dor-disfunção e melhoravam com o alívio dos sintomas — convergência de direção, com desenho frágil.

Esta evidência prova causa?

Não. São estudos correlacionais e transversais — falam de associação, não de causa, e não estabelecem a direção dos efeitos.

Referências

  1. Proshchenko AM, Shpak DYu, Shemelko ML, Reshetnyk LL, Sorokina KO. Analysis of the significance of risk factors in the development of temporomandibular joint dysfunction pain syndrome. Wiad Lek. 2025;78(5):1112-1117.
  2. McNamara DC. The clinical significance of median occlusal position. J Oral Rehabil. 1978;5(2):173-186.
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