Bruxismo: comportamento, não doença — o que muda
Na leitura mais recente — uma revisão de 2026 apoiada no consenso internacional de 2025 —, o bruxismo do sono deixou de ser uma doença ou «parafunção» e passou a ser definido como um comportamento motor: atividade dos músculos mastigatórios durante o sono que, em pessoas saudáveis, pode ser fator de risco, protetor ou neutro, e que, por ser um comportamento, nem sequer pode ser uma «comorbilidade». A oclusão foi afastada como causa e relida como modulador menor; o antigo sistema de «tem/não tem» foi abandonado a favor de uma leitura em continuum. Na prática, a maioria dos casos não exige tratar o bruxismo em si: gerem-se as consequências (desgaste, dor) e investigam-se fatores como sono, respiração e stress — com o diagnóstico e o tratamento sempre a cargo do médico dentista.

Porque é que deixámos de chamar «doença» ao bruxismo?
Durante décadas, o bruxismo foi tratado como uma parafunção — uma função desviada, um hábito nocivo a corrigir — e atribuído a interferências na mordida. Essa moldura orientou a clínica: encontrar desgaste, presumir bruxismo, procurar a culpa na oclusão e tentar «ajustá-la». A partir de meados dos anos 1990, os laboratórios de sono mudaram o retrato. O bruxismo do sono passou a ser descrito como parte de uma resposta de despertar (arousal) do sono, com uma ativação rítmica dos músculos mastigatórios de origem central — no sistema nervoso —, e não como uma reação local a um contacto dentário a mais.
Os consensos internacionais de 2013 e 2018 consolidaram a viragem, e a revisão narrativa de 2026 de Balasubramaniam, Manfredini e Guan, apoiada no consenso internacional de 2025, leva-a ao fim lógico: o bruxismo do sono é hoje entendido como um comportamento motor, não como um distúrbio. É uma mudança de vocabulário, mas sobretudo de atitude clínica.
O que significa dizer que o bruxismo é um «comportamento»?
Significa três coisas concretas. Primeiro, que o bruxismo se avalia num continuum de atividade muscular — por auto-relato e por métodos instrumentais como a eletromiografia — e não como algo simplesmente «presente» ou «ausente» a partir de um ponto de corte. A própria revisão refere que o antigo sistema de graduação, nunca validado, foi descartado. Segundo, que em pessoas saudáveis o bruxismo pode ser um fator de risco e/ou protetor — ou neutro —, e não necessariamente algo nocivo. Terceiro, e talvez o mais subtil: por ser um comportamento, e não uma doença, o bruxismo não pode sequer ser classificado como uma «comorbilidade» de outra condição. Os autores chegam a propor o abandono do próprio termo «parafunção» a favor de «atividade muscular», para reduzir tratamentos desnecessários.
Vale lembrar a escala do fenómeno: a prevalência estimada varia muito consoante o método (entre cerca de 1% e 49%), é mais alta na infância e decresce com a idade, sem diferenças entre sexos; nos estudos com polissonografia, ronda os 7%. Esta dispersão reflete sobretudo diferenças de critérios e de desenho — não uma epidemia oculta.
Se é um comportamento, ainda é preciso tratá-lo?
Na maioria dos casos, não diretamente. A revisão é explícita a separar duas coisas que muitas vezes se confundem: gerir as consequências do bruxismo (desgaste, fratura de restaurações, dor orofacial) é diferente de tentar tratar a atividade em si. E há um dado sóbrio: nenhuma intervenção demonstrou eliminar o bruxismo do sono. As goteiras protegem as superfícies dentárias, mas não reduzem o número de episódios a longo prazo; a sua função é de proteção, não de cura. Quando faz sentido reduzir a atividade, isso passa por tratar o que está por baixo — stress, perturbações do sono, refluxo, efeitos de medicação —, e não por mexer na mordida.
A mordida ainda é considerada a causa?
Não, e este é o ponto com mais impacto para a clínica. A revisão afirma que a etiologia oclusal singular está refutada: a oclusão e a morfologia craniofacial, outrora tidas como causas primárias, têm hoje um papel menor ou secundário e podem, quando muito, agir como moduladores que influenciam a manifestação ou a severidade em pessoas predispostas — não como causa. Mesmo a maloclusão, que aparece nas tabelas de risco com valores modestos (na ordem de 2 a 2,5 vezes), entra como fator periférico e grosseiro, não como gerador.
Isto não torna a leitura da oclusão inútil — torna-a mais modesta e mais dinâmica. Em vez de procurar na forma estática da mordida a causa do bruxismo, faz mais sentido observar como o sistema mastigatório se comporta, em conjunto com outros sinais. Um vocabulário dinâmico — o bruxismo associa-se a, co-varia com, modula-se sob desafio — descreve melhor o fenómeno do que «a mordida causa» ou «ajustar a mordida resolve». É curioso, e revelador, que em algumas partes do mundo mais de metade dos dentistas continue a apontar a oclusão como causa primária: a ideia antiga é persistente, e parte do trabalho clínico é precisamente atualizá-la.
O desgaste dentário prova que há bruxismo ativo?
Não prova. O desgaste pode ter outras origens — a erosão por refluxo, por exemplo — e refletir uma história antiga, já estabilizada, e não uma atividade presente. Lê-lo automaticamente como «prova» de bruxismo é exceder o que os dados sustentam. Faz mais sentido tratá-lo como um sinal a contextualizar do que como um diagnóstico fechado — um tema que desenvolvo no artigo irmão sobre o que o desgaste realmente diz.
«Bruxism does not kill»: afinal, o bruxismo é perigoso?
Uma das formas mais claras de perceber a mudança vem de um estudo de coorte de gémeos finlandeses seguidos ao longo de 30 anos. Sem ajuste, quem bruxava semanalmente tinha um risco de mortalidade cerca de 40% superior; mas, depois de se ajustarem os fatores de confusão habituais, essa associação desaparecia por completo. A conclusão dos autores é direta — «bruxism does not kill» —, em linha, escrevem, com a sua definição de ser antes um comportamento (com todos os seus fenótipos) do que uma doença. Para a maioria das pessoas, o bruxismo é um sinal a contextualizar, não uma ameaça em si.
O que muda, então, na prática clínica?
Muda a pergunta. Em vez de «há bruxismo, logo há que mexer na mordida», passa a fazer-se uma leitura aberta e funcional: o que está a acontecer no sono, na respiração e no tónus muscular, e como esses sinais se articulam. Um desgaste marcado deixa de ser apenas um problema de superfície e passa a ser, também, um sinal indireto que justifica atenção ao sono e à respiração — incluindo o rastreio de perturbações respiratórias do sono e o devido encaminhamento. Há ainda uma nota de prudência com goteiras quando existe suspeita de apneia, já que certos dispositivos podem ter efeito desfavorável na via aérea.
No fundo, trata-se de trocar um diagnóstico fechado por uma leitura integrada. O diagnóstico e o tratamento são sempre do médico dentista e, quando indicado, da medicina do sono. O papel de quem faz uma leitura funcional, como o fisioterapeuta, é integrar estes sinais — sono, respiração, tónus, postura — e devolvê-los ao circuito clínico, não substituí-lo.
Perguntas frequentes
O bruxismo é uma doença?
Na definição mais recente, não. Em pessoas saudáveis é um comportamento motor — atividade dos músculos mastigatórios avaliada num continuum — que pode ser fator de risco, protetor ou neutro. Por ser um comportamento, não pode sequer ser classificado como comorbilidade de outra condição.
Tenho de tratar o bruxismo?
Na maioria dos casos não diretamente. Gere-se as consequências (desgaste, dor) e investigam-se fatores como sono, respiração e stress. Nenhuma intervenção demonstrou eliminar o bruxismo do sono, e as goteiras protegem os dentes mas não reduzem os episódios a longo prazo. O diagnóstico e o tratamento são do médico dentista.
O bruxismo é perigoso para a saúde?
Num estudo de gémeos seguido durante 30 anos, o risco de mortalidade que parecia associado ao bruxismo desaparecia após ajuste dos fatores de confusão — os autores resumem-no como «bruxism does not kill». É coerente com a leitura do bruxismo como comportamento, e não como doença.
Referências
- Balasubramaniam R, Manfredini D, Guan G. Sleep Bruxism: A Narrative Review of Current Concepts, Mechanisms, and Clinical Implications. J R Soc N Z. 2026;56(2):e70046.
- Manfredini D, Ahlberg J, Lobbezoo F. Bruxism definition: Past, present, and future - What should a prosthodontist know? J Prosthet Dent. 2022;128(5):905-912.
- Lobbezoo F, Ahlberg J, Raphael KG, et al. International consensus on the assessment of bruxism: Report of a work in progress. J Oral Rehabil. 2018;45(11):837-844.
- Ahlberg J, Lobbezoo F, Manfredini D, Piirtola M, Hublin C, Kaprio J. Self-reported sleep bruxism and mortality in 1990-2020 in a nationwide twin cohort. J Oral Rehabil. 2024;51(1):125-130.
