Que músculo é mais sobrecarregado ao apertar os dentes?
Quando se aperta ou range os dentes, o músculo mais sobrecarregado não é o masséter, mas o pterigóideo medial — um músculo profundo e de pequena dimensão que, num estudo biomecânico com 10 adultos saudáveis, foi o mais carregado em todas as direções de mordida. A direção conta tanto como a intensidade: morder com componentes horizontais (de lado) carregou mais os pterigóideos e as articulações, enquanto a mordida estritamente vertical gerou as forças articulares mais baixas (cerca de 90 N) e a mordida medial as mais altas (cerca de 150 N). A coordenação dos músculos seguiu uma regra de economia de energia. Na prática, a carga não se deduz só da força do aperto: depende de que músculos e em que direção a força é construída — uma leitura dinâmica, a fazer em conjunto com o médico dentista.

Porque é que o músculo mais sobrecarregado não é o masséter?
Na clínica, é natural pensar no masséter como o motor da mordida — é volumoso, palpável e fácil de associar à força do aperto. O estudo de Schindler e colegas (2007) desafia essa intuição. Os autores modelaram as forças nos músculos e nas duas articulações temporomandibulares durante o clenching bilateral, a partir da eletromiografia dos doze músculos mastigatórios e de modelos anatómicos individuais por ressonância, com um dispositivo intraoral que permitia variar a direção do vetor de força de mordida. O resultado mais marcante é também o mais contraintuitivo: o pterigóideo medial — um músculo profundo, de pequena dimensão, difícil de palpar — foi o mais carregado em todas as direções de mordida.
A razão é geométrica. Em mordidas com componente horizontal acentuado (direções anterolateral a lateral, com inclinações de 40° a 60°), os pterigóideos medial e lateral do lado contrário, favorecidos pela sua linha de ação, geraram mais força do que o masséter — apesar de a sua área de secção fisiológica ser apenas cerca de um terço a metade da deste. E na mordida estritamente vertical, precisamente por ter uma secção menor, o pterigóideo medial voltou a ser o mais solicitado. Ou seja: o músculo que mais trabalha não é o maior, mas o que está em melhor posição mecânica para a tarefa — e essa peça está fora do campo de palpação de rotina.
Porque é que apertar de lado pesa mais do que apertar a direito?
A direção da mordida não é um detalhe: foi uma variável com efeito estatístico forte. A análise de variância mostrou influência significativa tanto do ângulo horizontal como do ângulo de inclinação sobre as forças musculares e articulares (p < 0,001), com interação significativa entre os dois. À medida que a inclinação aumentava, o pterigóideo lateral e o temporal posterior cresciam, enquanto o masséter e o temporal anterior faziam o inverso. E a mordida dirigida lateralmente provocou as forças musculares mais altas no temporal anterior e posterior do mesmo lado (90 a 100 N) e, em simultâneo, no pterigóideo medial, pterigóideo lateral e masséter do lado oposto.
Para quem pensa o sistema mastigatório como um sistema de controlo, a leitura é útil: construir força "de lado" — como acontece em padrões de ranger lateral — recruta intensamente a musculatura profunda, exatamente a que costuma ficar invisível na avaliação. Não é a intensidade do aperto, por si, que define onde a carga se concentra; é a direção em que a força é construída.
A direção da mordida muda a carga na articulação?
Muda, e de forma clara. As forças de reação articular foram mais baixas na mordida estritamente vertical (cerca de 90 N) e atingiram o máximo na mordida medial e anteromedial (cerca de 150 N). Por outras palavras, as articulações são carregadas claramente mais quando a mordida tem componentes horizontais distintos. O estudo estimou ainda a orientação dessas forças: a direção com que os côndilos pressionam a eminência articular variou entre 5° e 130°, com componentes anteriores e também posteriores.
É aqui que convém separar o que o estudo demonstra do que sugere. As magnitudes e direções das forças são resultados do cálculo. A ideia de que forças com orientação mais posterior poderiam contribuir para um deslocamento anterior do disco é uma hipótese que os próprios autores levantam com prudência — não um achado. Para a leitura INOS, isto fica no registo do mecanismo plausível a explorar, não no da causa demonstrada: a carga articular co-varia com a direção da mordida, e essa é a afirmação que os dados sustentam.
Que regra segue o sistema para coordenar tantos músculos?
Com doze músculos a partilhar uma tarefa, há infinitas combinações possíveis de recrutamento. Para perceber qual o princípio que o sistema nervoso parece seguir, os autores testaram três objetivos que a coordenação poderia estar a minimizar: a carga nas articulações, o esforço muscular global, ou a energia elástica gasta pelos músculos. De longe, foi a minimização da energia que melhor reproduziu os dados reais, com um desvio de cerca de 9,8 N. As alternativas ficaram bastante mais longe — minimizar a carga articular afastou-se cerca de 18 N, e minimizar o esforço muscular cerca de 16 N.
A leitura é elegante e coerente com a do funcionamento normal: a coordenação dos músculos mastigatórios na mordida bilateral comporta-se como se o sistema procurasse, antes de tudo, gastar a menor energia possível. A proteção da articulação não desaparece — surge mais como um cuidado de segundo plano, que os autores sugerem poder ganhar peso na mordida de um só lado. O recrutamento muscular é, portanto, um processo centralmente otimizado, e não uma soma fixa de contribuições músculo a músculo.
O que é que isto muda na leitura clínica?
Antes de qualquer aplicação, é preciso nomear os limites, porque definem o alcance. A amostra é pequena e selecionada: dez homens jovens saudáveis, de Classe I ou Classe II ligeira, sem maloclusões nem anomalias esqueléticas. As forças não foram medidas dentro da articulação, mas calculadas a partir de modelos biomecânicos e de eletromiografia, com as incertezas próprias do método. E a transmissão de força fez-se num único ponto central, ao nível dos primeiros molares, o que limita a comparação direta com a intercúspide máxima. Nada disto invalida os achados, mas recomenda lê-los como um retrato fino do funcionamento normal, não como regra para doentes com disfunção.
Com essas cautelas, ficam três ideias úteis. Primeiro, que a carga do clenching se concentra em músculos profundos — sobretudo o pterigóideo medial — e depende da direção da mordida; vale a pena, por isso, não reduzir a avaliação ao masséter e ao temporal, e atender a padrões de parafunção lateral. Segundo, que a carga, muscular ou articular, é um resultado de controlo motor: lê-se de forma dinâmica, e não se deduz só da intensidade do aperto nem da fotografia estática dos contactos. Terceiro, que o terreno é de associação e de mecanismo plausível, não de causa demonstrada — e que o diagnóstico e o tratamento permanecem do médico dentista, com quem esta leitura funcional do sistema deve ser articulada.
Perguntas frequentes
Qual é o músculo mais sobrecarregado ao apertar os dentes?
Neste estudo biomecânico, foi o pterigóideo medial — um músculo profundo de pequena dimensão — que se revelou o mais carregado em todas as direções de mordida, à frente do masséter, apesar de a sua área de secção ser apenas cerca de um terço a metade da deste.
Apertar de lado carrega mais a articulação do que apertar a direito?
Sim. As forças articulares foram mais baixas na mordida estritamente vertical (cerca de 90 N) e mais altas na mordida medial e anteromedial (cerca de 150 N). As mordidas com componentes horizontais carregam claramente mais os pterigóideos e as articulações.
Este estudo prova que a mordida danifica a articulação?
Não. Foi feito em dez homens jovens saudáveis, sem maloclusão, e as forças foram calculadas a partir de modelos, não medidas na articulação. Descreve o funcionamento normal e fala de associação e de mecanismo plausível, não de causa; a leitura clínica cabe ao médico dentista.
