distensão abdominal / dissinergia abdominofrénica

Porque é que a barriga incha mesmo sem muito gás?

Leonardo Machado

A distensão abdominal visível — a barriga que cresce ao longo do dia — nem sempre é excesso de gás: é, em boa parte, um padrão muscular. Num estudo experimental (Villoria e colegas, 2011), perante a mesma pequena carga de gás no cólon, pessoas com queixa de inchaço distenderam mais do que pessoas sem queixa, e faziam-no com um padrão paradoxal — o diafragma contraía-se (em vez de relaxar) e a parede abdominal cedia (em vez de a conter). A esse descompasso entre diafragma e parede os autores chamaram dissinergia abdominofrénica. É mais uma resposta do corpo a um desconforto interno do que uma medida de quanto gás existe — e os próprios autores admitem que pode ser, em parte, um padrão aprendido. Fala-se de associação e de mecanismo, não de causa provada; o diagnóstico e o tratamento são sempre do médico responsável.

Distensão abdominal como padrão muscular — diafragma e parede abdominal numa leitura sistémica do inchaço, em consultório de tom neutro
A barriga que cresce ao longo do dia raramente é só gás: associa-se a um padrão muscular — o diafragma e a parede abdominal a responder em descompasso a um sinal interno.

Inchar é o mesmo que ter muito gás?

Nem sempre. No dia a dia, «inchaço» é a sensação de estar distendido; «distensão» é o aumento real do perímetro da barriga, que se vê e se mede. Os dois nem sempre andam juntos — há quem sinta muito inchaço sem crescer muito, e há quem distenda de forma visível sem grande desconforto. O que costuma surpreender é que essa barriga que cresce ao longo do dia não corresponde, em regra, a uma grande quantidade de gás retido. Se não é o gás a explicar tudo, o que falta na equação? A resposta que a investigação foi encontrando aponta para os músculos que dão forma ao abdómen — o diafragma, por cima, e a parede abdominal, à frente.

O que é que o estudo mediu — e em quem?

Num estudo experimental publicado por Villoria e colegas em 2011, vinte pessoas com queixa principal de inchaço (com síndrome do intestino irritável com obstipação ou inchaço funcional, segundo os critérios de Roma III) foram comparadas com quinze pessoas sem essa queixa. A todas se introduziu uma carga controlada e idêntica de gás no cólon — a um ritmo lento, ao longo de uma hora — enquanto se media o perímetro abdominal e, sobretudo, a atividade elétrica dos músculos, a do diafragma e a da parede abdominal, por electromiografia. A ideia era simples e elegante: dar a mesma «encomenda» de volume a toda a gente e observar como cada corpo a acomoda. Medir o músculo, e não só o gás, foi o que permitiu ver o que estava a acontecer.

Qual foi a diferença entre quem incha e quem não incha?

A diferença foi clara e, à primeira vista, contraintuitiva. Nas pessoas sem queixa, o corpo acomodou o volume da forma esperada: o diafragma relaxou — deixando subir o «teto» da cavidade — e a parede da frente ganhou tónus, contendo a barriga. Nas pessoas com inchaço, o padrão inverteu-se. Com a mesma carga de gás, distenderam significativamente mais e sentiram mais, e faziam-no com uma resposta paradoxal: o diafragma contraía-se em vez de relaxar e o oblíquo interno, um músculo da parede, relaxava em vez de conter. Por outras palavras, o «teto» empurrava para baixo e a «frente» cedia — uma combinação quase perfeita para projetar a barriga para fora. O efeito foi consistente entre os participantes e acompanhou a própria sensação de inchaço — quanto mais a parede relaxava, maior tendia a ser a distensão sentida —, o que reforça a ideia de que o que se via na barriga correspondia a algo real no comportamento dos músculos.

O que é a «dissinergia abdominofrénica»?

Foi o nome que os autores deram a este descompasso: dissinergia (falta de coordenação) entre o diafragma — a parte «frénica» — e a parede abdominal. Em vez de trabalharem em equipa para acomodar o conteúdo, com um a abrir espaço por cima e o outro a conter à frente, passam a trabalhar um contra o outro. Não é um defeito de carácter nem «falta de força»: é um padrão motor, registável em tempo real no sinal elétrico dos músculos. E é importante porque desloca a conversa do conteúdo — quanto gás — para o continente: que músculos dão forma à barriga e como respondem a um sinal vindo de dentro. É também por aqui que se entende que duas pessoas com a mesma queixa de inchaço possam precisar de leituras diferentes: o que está em jogo é a forma como cada corpo responde, e essa varia de pessoa para pessoa.

Pouco gás, muita barriga: como pode ser?

Aqui está a peça que fecha o raciocínio. A quantidade de gás envolvida nestes episódios costuma ser pequena. No estudo, o aumento de perímetro provocado experimentalmente — cerca de um centímetro — foi semelhante ao que outro trabalho do mesmo grupo tinha medido por tomografia durante episódios espontâneos de inchaço (à volta de 1,4 cm, segundo Accarino e colegas, 2009). Ou seja, não é preciso «muito gás» para uma barriga visivelmente maior: basta que os músculos respondam desta forma. A distensão passa a ler-se menos como uma medida de volume e mais como um gesto do corpo perante um desconforto interno, num contexto em que o intestino tende a estar mais sensível e a reagir a sinais que noutra pessoa passariam despercebidos.

Isto prova que o diafragma «causa» o inchaço?

Não — e vale a pena ser honesto quanto aos limites. Trata-se de um modelo experimental de provocação, com uma amostra pequena, e os próprios autores reconhecem que os dados não permitem dizer se o «primeiro a mexer» é o diafragma a contrair ou a parede a ceder; qualquer um pode desencadear o outro. Mais: os autores levantam a hipótese de que esta resposta seja, em parte, um padrão aprendido — comparam-na a gestos como a aerofagia ou a ruminação, desencadeados pelo próprio desconforto. Fala-se, portanto, de associação e de mecanismo, não de uma relação de causa demonstrada nem de uma «avaria» localizada num único ponto. E nada disto substitui a avaliação clínica: o diagnóstico e o tratamento pertencem sempre ao médico responsável.

O que muda olhar para a distensão como um gesto do corpo?

Muda a pergunta. Em vez de «quanto gás tenho a mais?», abre-se espaço para «como é que o meu corpo está a responder a este sinal interno?». A distensão deixa de ser apenas um problema de digestão e passa a envolver a respiração, o diafragma e o tónus da parede abdominal — um sistema que se lê em conjunto, não um órgão isolado. Para quem vive com a barriga a crescer ao longo do dia, é uma leitura mais completa e menos culpabilizante: o corpo não está «estragado», está a reagir. E é uma leitura útil na prática, porque sugere caminhos para lá de mexer só na dieta — incluindo trabalhar a forma como o diafragma e a parede coordenam, uma via que os próprios autores chegaram a explorar. Sempre, claro, com o médico a conduzir o diagnóstico e o tratamento, e com a humildade de quem fala de um corpo que interpreta sinais — não de um interruptor que se desliga. Na prática, é um convite a olhar para a pessoa inteira — respiração, postura e o ritmo do dia — em vez de procurar uma única causa para a barriga que cresce ao fim da tarde.

Perguntas frequentes

Inchaço e distensão abdominal são a mesma coisa?

Não exatamente. Inchaço é a sensação de estar distendido; distensão é o aumento real do perímetro da barriga, que se vê e se mede. Podem andar juntos ou não — há quem sinta muito sem crescer muito, e o contrário.

Se tenho a barriga inchada, é porque tenho gases a mais?

Nem sempre. A quantidade de gás nestes episódios costuma ser pequena. Boa parte da distensão visível associa-se a um padrão muscular — o diafragma e a parede abdominal a responder de forma descoordenada —, não a um grande excesso de gás.

A respiração tem alguma coisa que ver com a barriga inchada?

Pode ter. O diafragma é o principal músculo da respiração e, ao mesmo tempo, dá forma ao topo do abdómen. Quando se contrai em vez de relaxar perante o conteúdo, contribui para a distensão — por isso faz sentido ler a respiração em conjunto com a queixa.

Isto quer dizer que o inchaço é «psicológico»?

Não. É um padrão muscular real, registado por electromiografia. Os autores admitem que pode ser, em parte, aprendido (como a aerofagia), mas isso não o torna imaginado — torna-o uma resposta do corpo a um sinal interno, a ler com o médico responsável.

Referências

  1. Villoria A, Azpiroz F, Burri E, Cisternas D, Soldevilla A, Malagelada JR. Abdomino-phrenic dyssynergia in patients with abdominal bloating and distension. Am J Gastroenterol. 2011;106(5):815-819.
  2. Accarino A, Perez F, Azpiroz F, Quiroga S, Malagelada JR. Abdominal distention results from caudo-ventral redistribution of contents. Gastroenterology. 2009;136(5):1544-1551.
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